JEITINHO BRASILEIRO: DA CRIATIVIDADE À CORRUPÇÃO

em Corrupção | 09.12.2017

No Dia Internacional de Combate à Corrupção vamos falar do famoso "jeitinho brasileiro". Por que ele está tão presente na nossa cultura? O porquê de agirmos da forma que agimos, reproduzindo essa prática de maneira tão frequente? Para que possamos compreender ao máximo a nossa sociedade, precisamos entender melhor esse controverso conceito. O site Politize! nos ajudou com isso.

Imagine a seguinte situação: você está na fila do banco. Muitas pessoas esperam para serem atendidas e há um número pequeno de funcionários para atender a todos. As horas não passam, o recinto está abafado e as crianças à sua frente choram, angustiadas com a demora daquele ambiente desinteressante. De repente, você vê um homem andando rapidamente em direção ao caixa. Lá na frente você percebe o homem tentando ser atendido, mas a funcionária faz sinal negativo. Ele diz que seu caso é uma emergência e que o que ele precisa é “rapidinho”.

A funcionária continua negando, porém ele é persistente. Nesse momento, o tumulto na fila começa e alguém lá no fundo grita “a fila começa aqui!”, mas o homem não hesita e, de tanto insistir, aparece o gerente. Este o chama num canto e pega o papel que o homem tem em mãos. Pronto, o homem conseguiu o que tanto queria, mesmo com a longa fila e a  demorada espera. Esse é o clássico “jeitinho brasileiro”.

Com certeza você já presenciou alguma cena desse tipo. Pode ter sido no banco, na padaria ou em qualquer outro lugar. Parece que sempre existe alguém pronto para “dar um jeito”. Se não fosse assim, o jeitinho brasileiro não seria tão conhecido por nós, não é mesmo? Mas acredite, por mais que o termo esteja na boca do povo, suas origens são mais profundas do que imaginamos!

DEFINIÇÕES E CONCEPÇÕES

Todos nós temos noção do que é o jeitinho brasileiro e podemos identificá-lo em diversas situações cotidianas. Mas é importante entender também o que os estudiosos têm a dizer sobre ele. Dois exemplos são os antropólogos Lívia Barbosa e Roberto DaMatta, que definem o jeito como algo relativo, que pode ser visto tanto como algo bom quanto ruim

No livro “O jeitinho brasileiro: a arte de ser mais igual que os outros”, Livia Barbosa mostra a ambiguidade do conceito:

“ […] o jeitinho é sempre uma forma “especial” de se resolver algum problema ou situação difícil ou proibida; ou uma solução criativa para alguma emergência, seja sob a forma de conciliação, esperteza ou habilidade. Portanto, para que uma determinada situação seja considerada jeito, necessita-se de um acontecimento imprevisto e adverso aos objetivos do indivíduo. Para resolvê-la, é necessária uma maneira especial, isto é, eficiente e rápida, para tratar do ‘problema’.”

Neste mesmo livro, Barbosa traz outro ponto interessante. O jeitinho brasileiro pode ser visto tanto como um favor, quanto como uma forma de corrupção. Segundo a autora, ele estaria localizado entre esses dois polos, onde o primeiro é positivo e o outro é negativo, podendo pender mais para um lado ou para o outro. O que caracterizaria o jeito como algo positivo ou negativo depende da situação em que ele ocorre e a relação que existe entre as pessoas envolvidas.

Digamos, por exemplo, que você pediu para que uma pessoa fizesse um favor para você. Até aí não vemos nenhum problema. Podemos pensar que essa pessoa é sua amiga, tornando a situação mais comum ainda. Mas vamos supor que esse seu amigo seja um funcionário do DETRAN e você irá perder sua CNH por dirigir em alta velocidade. Ou seja, o que era um simples favor começa a se caracterizar como algo ilegal. Isso demonstra os dois pontos: como o favor começa a pender para o polo negativo, a depender da situação, e como a relação entre os indivíduos envolvidos é um fator que contribui para o jeitinho. Barbosa explica:

“Um outro aspecto que singulariza o jeito do favor é o grau de conhecimento entre as pessoas envolvidas na situação. Enquanto eu posso pedir um jeito a um desconhecido, favor não se pede a qualquer um. […] existe a idéia de que determinados assuntos e situações requerem confiança por parte de quem pede e, portanto, é necessário conhecer com quem se está tratando.”

Em Dando um jeito no jeitinho, Lourenço Stelio Rega traz uma ampla variedade de visões. O autor mostra como são extensas as concepções sobre o conceito, que representam o “jeitinho” desde algo positivo – que retrata a flexibilidade e criatividade do brasileiro em resolver situações – até como uma filosofia de “tentar levar vantagem em tudo”, uma forma de corrupção – nesse caso caracterizando-se como algo negativo.

PORQUE TEMOS ESSE NOSSO JEITINHO?

As nossas práticas sociais são profundamente marcadas pelo nosso desenrolar histórico. Por isso, precisamos buscar nas nossas raízes a origem do conceito. Ao discorrer sobre isso, Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro Raízes do Brasil, apresenta o conceito de “homem cordial”. Vale ressaltar que o autor apresenta toda uma contextualização histórica sobre o termo, mas por questões didáticas simplificamos para uma melhor compreensão.

Sabemos que o Brasil passou por diversos períodos de exploração, que tiveram início com a  chegada dos portugueses. Como já abordado nesse artigo do Politize! sobre patrimonialismo, leitura essencial para a total compreensão do que é o homem cordial, a forma de administração trazida pelos portugueses para o Brasil é a mesma que vigorava na metrópole. Portanto, as particularidades dessa nova terra não foram consideradas e isso abriu espaço para a ampla exploração recursos naturais e de mão-de-obra.

Em seu primeiro capítulo, Sergio Buarque fala sobre nossas origens ibéricas e sobre as características dos povos da península e mostra que uma característica marcante entre eles era a solidariedade. Esta “existe somente onde há vinculação de sentimentos mais do que relações de interesse – no recinto doméstico ou entre amigos”. Veremos que essa importância dos sentimentos nas relações será uma das características principais do “homem cordial”.

Futuramente em nossa história, teremos outros momentos de exploração, como por exemplo, no coronelismo, período em que os coronéis forneciam proteção para as pessoas em troca de voto para determinado candidato. Caso a pessoa se recusasse a votar no candidato estipulado pelos coronéis, ela poderia sofrer perseguições e ser agredida. Essa prática ficou conhecida como voto de cabresto.

Vemos que essas relações foram marcadas pelo fator da “cordialidade”, mesmo que em contextos de tensão. Presentes, proteção e afeto foram dados por aqueles que exploravam e, como escreveu Antonio Candido no prefácio do livro de Sérgio Buarque, “o brasileiro recebeu o peso das ‘relações de simpatia’. Assim surgiu o homem cordial. Aquele que constrói seus relacionamentos pela simpatia, pela emoção e não pela razão; aquele que não está adequado às relações impessoais, agindo predominantemente de forma afetiva. Por isso, somos vistos como pessoas hospitaleiras e receptivas, nossas relações pessoais e íntimas se confundem com as relações públicas. Nós tratamos o que é público como “uma extensão de nossa casa, de nossa família” e assim, conseguimos escapar das formalidades e burocracias existentes. Para o historiador, essa característica do homem cordial traz uma dificuldade em lidar com situações formais e rígidas.

No quinto capítulo de Raízes do Brasil, depois de uma longa contextualização, Holanda se dedica exclusivamente a caracterizar o “homem cordial” e quais são os desdobramentos de sua cordialidade. Ao se referir sobre a forma impessoal de lidar com as situações formais, o autor mostra que existe uma dificuldade dos brasileiros “de uma reverência prolongada ante um superior”. E ele continua, dizendo que “nosso temperamento admite fórmulas de reverência, e até de bom grado, mas quase somente enquanto não suprimam de todo a possibilidade de convívio mais familiar”. Ou seja, nosso respeito pelos outros traz uma carga de desejo de intimidade.

Com isso, ele explica até mesmo que o emprego da terminação “inho” serve para nos familiarizar mais com as pessoas ou objetos, como se tivéssemos um apreço, um carinho por elas. Podemos observar que até mesmo o que estamos discutindo é comumente chamado jeitinho brasileiro. Mais para o fim do capítulo, ele nos demonstra que o brasileiro, em decorrência de sua informalidade, estabelece uma relação de proximidade e amizade até mesmo com figuras religiosas, como se essa distância interpessoal não pudesse existir nem mesmo no âmbito da religiosidade.

Como dissemos anteriormente, uma característica fundamental do homem cordial é que existe uma confusão entre as relações que são estabelecidas, entre o privado e o público. No livro de Lívia Barbosa, DaMatta diz que o jeitinho brasileiro:

“[…] se constitui num modelo obrigatório de resolver aquelas situações nas quais uma pessoa se depara com um “não pode” de uma lei ou autoridade e – passando por baixo da negativa sem contestar, agredir ou recusar a lei, obtém aquilo que desejava, ficando assim ”mais igual” do que os outros”.

Essa descrição de DaMatta traz um aspecto importante da cordialidade que ajuda a compreender o que estamos trazendo com todas essas informações. O “homem cordial” e o jeitinho brasileiro se relacionam na medida em que os dois tratam de uma forma peculiar de lidar com as situações cotidianas. O “homem cordial” é aquele que mescla os seus sentimentos com situações que deveriam ser formais e impessoais. Ele busca sempre um contato através da afetividade, de uma certa “calorosidade”. No jeitinho brasileiro, podemos imaginá-lo como uma consequência dessa característica. No momento que se estabelece uma relação pessoal e de proximidade com o outro, encontramos uma brecha para quebrar a rigidez e a formalidade do cotidiano e assim, conseguirmos aquele favorzinho na fila de espera, por exemplo.

A PSICOLOGIA DO JEITINHO BRASILEIRO

Agora que já esclarecemos as bases históricas do jeitinho brasileiro, precisamos trazer a psicologia comportamental para essa discussão. Ela mostra que nossos comportamentos geram consequências e que, dependendo do resultado que eles trouxerem, esses comportamentos podem cessar ou continuar ocorrendo futuramente. Vamos supor que você vai mal em uma prova e procura o seu professor logo depois da correção para pedir um ponto a mais. Caso ele recuse aumentar a nota e até desconte meio ponto pelo pedido, a chance de você fazer o mesmo pedido para ele em outra ocasião irá diminuir; caso ele aceite, aumentam as chances de você repetir o comportamento.

A lógica é bem simples: você faz o que faz porque se sente bem assim, você é recompensado por isso. Se você já fez algo errado e foi punido, com certeza pensará bastante antes de repetir a ação. Essa ideia pode nos ajudar a refletir sobre todas as outras ações em nossa vida. Com esse raciocínio, podemos pensar que em uma situação em que alguém furou fila e ninguém se opôs, é possível que a pessoa  torne a furar outra fila futuramente. Então podemos pensar contribuem para a situação tanto quem pratica o ato, quanto quem o presencia sem se opor a ele. E é aí, como cidadãos, que podemos pensar em nossas atitudes. Se presenciarmos alguém dando um jeitinho, seja ele positivo ou negativo, qual deve ser nossa ação: recompensar a pessoa ou repreendê-la?

ENTÃO, O QUE DEVE SER FEITO?

Existe um problema ao pensar no jeitinho. Desde sempre, o brasileiro se viu explorado e em uma sociedade hierarquizada. Porém, se pensarmos em outras civilizações que são marcadas por uma história hierárquica, como o Japão por exemplo, veremos que as relações sociais evoluíram de outra forma, muito oposta ao Brasil.

A hierarquia no Japão é rigidamente respeitada, fazendo com que as relações sejam reguladas por convenções e formalidades que expõem a distância social entre os indivíduos. Ruth Benedict traz esse ponto em seu livro O crisântemo e a espada ao dizer que os japoneses sabem “assumir a posição devida”Vemos, portanto, que o japonês está longe daquilo que definimos como o “homem cordial”. Essa característica dos japoneses nos leva ao conceito de Giri, que pode ser traduzido basicamente como dever, obrigação. Quando um indivíduo dá algo ou faz algum favor a outro, este último está em “dívida” com o primeiro, devendo retribuir o que foi dado. Assim, é estabelecida uma relação de confiança, fundamentada principalmente na honra e no respeito. Mas então, o que faz com que uma cultura respeite a formalidade e outra tente driblá-la?

Como mostramos, o patrimonialismo importou um modo de operar de outra civilização, diferente da nossa. Houve certa imposição de valores que não estavam adequados ao modo de funcionamento do brasileiro. E é aí que está a diferença. Se observarmos nossa história e a dos japoneses, veremos que, relativamente a eles, nossa cultura teve uma influência tardia, enquanto a civilização japonesa já tem seus próprios valores desenvolvidos há muito mais tempo. Dessa forma, ao longo de nosso desenvolvimento, encontramos formas criativas e indiretas de burlar as leis que nos impediam de alcançar algum objetivo – e hoje não é diferente. Mas isso não quer dizer que usamos isso sempre para o mal.

O jeitinho brasileiro é, sem dúvidas, uma característica marcante do brasileiro. Revela toda a sua flexibilidade e sua criatividade – o “gingado” do brasileiro. Isso pode nos trazer coisas boas e inovações para o nosso cotidiano, mas é preciso estar atento, porque no momento em que utilizamos isso de forma a nos beneficiar em detrimento dos outros, estaremos sustentando uma visão negativa de malandragem, e, portanto, de pessoas corruptas.

Sendo assim, precisamos nos questionar sobre qual é o nosso papel como indivíduos em uma sociedade. Se vivemos em conjunto, temos de encontrar formas de estar sempre melhorando essa sociedade, cuidando e buscando o bom funcionamento desta. Logo, devemos nos conscientizar sobre nossas atitudes, ter uma conduta ética em nosso cotidiano e ter uma participação ativa, para que possamos construir com muita criatividade e inovação um futuro mais honesto para nossa sociedade.