Grupo JBS teve R$ 12,8 bilhões em operações com o BNDES em 11 anos

em Orçamento | 16.05.2017

A Polícia Federal deflagrou na última sexta-feira (12) uma operação para apurar suspeitas de irregularidades em investimentos de uma subsidiária do BNDES. Conforme dados do Contas Abertas, de 2002 até o primeiro trimestre de 2013, as operações do Grupo JBS somaram R$ 12,8 bilhões.

As empresas favorecidas com os recursos dentro do grupo foram a JBS S.A. (R$ 6,6 bilhões), Bertin S.A.(R$ 2,7 bilhões), Bracol Holding Ltda (R$ 425,9 milhões), Vigor (R$ 250,2 milhões) e a Eldorado (R$ 2,8 bilhões). No período consultado não foram encontradas operações para as demais empresas do Grupo.

Cabe ressaltar também as doações eleitorais realizadas pelo grupo, até 12 de agosto de 2014, o Grupo JBS já havia doado R$ 53,3 milhões para campanhas eleitorais. A maior parte das doações foram endereçadas aos Comitês, Direções Estaduais/Distritais e Direções Nacionais, sendo apenas 5 os candidatos que receberam recursos diretamente do JBS.

Entre os presidenciáveis à época, Dilma Rousseff recebeu diretamente R$ 4,5 milhões, sendo que outros R$ 500 mil foram pagos ao Comitê Financeiro Nacional para Presidente da República do PT. Valor idêntico foi pago ao Comitê Financeiro Nacional para Presidente da República do PSDB (R$ 3 milhões + R$ 2 milhões), do então candidato, Aécio Neves.

Por partido político, o PMDB foi o melhor contemplado com R$ 13,7 milhões, seguido do PP (R$ 10 milhões), PSD (R$ 9 milhões), PSDB (R$ 7 milhões), PR (R$ 5 milhões), PT (R$ 5 milhões), Solidariedade (R$ 3 milhões), PSB (R$ 370 mil) e PRB (R$ 300 mil).

A operação

Os policiais federais buscaram provas em 20 endereços em São Paulo e no Rio de Janeiro. E também cumpriram mandados de condução coercitiva para levar 37 pessoas para depor. A operação Bullish investiga se a BNDESPar, subsidiária do BNDES que administra os investimentos do banco em outras empresas, favoreceu a empresa JBS em investimentos.

Houve busca no endereço do ex-presidente do BNDES Luciano Coutinho. Ele também seria levado para depor, mas está em Londres. Coutinho comandou o banco de maio de 2007 a maio de 2016, nos governos Lula e Dilma.

Os policiais foram à casa do dono da JBS, Joesley Batista, que também não foi levado para depor porque está no exterior. Houve apreensão na casa do irmão dele, Wesley Batista. Segundo a JBS, Wesley foi espontaneamente à Polícia Federal prestar depoimento.

De acordo com as investigações, os aportes de recursos à JBS foram feitas em condições diferenciadas, sem as garantias devidas. O dinheiro era para que a empresa conseguisse fazer grandes aquisições, como a compra de frigoríficos.

Os financiamentos sob suspeita foram feitos de 2007 a 2011 e totalizam R$ 8 bilhões. A suspeita dos investigadores é que as operações tenham causado um prejuízo de R$ 1,2 bilhão.

As investigações mostram que, em 2008, a JBS desistiu de uma aquisição, mas não devolveu o dinheiro que já tinha sido investido pela BNDESPar.

Segundo um laudo da Polícia Federal, havia “o entendimento de que a JBS precisava de folga de caixa por causa da crise financeira, e isso foi apresentado como fundamento para a decisão de manter os recursos aportados e não usados para o fim inicialmente pactuado, e que isso não era compatível com a autorização para que a empresa usasse esse dinheiro em outras aquisições”, segundo os investigadores.

A Polícia Federal também suspeita que a BNDESPar comprou ações da empresa JBS com valor acima do mercado e que o BNDES teria mudado a avaliação de risco para conceder aporte de capital à JBS para comprar o frigorífico Bertin.

Na decisão, o juiz Ricardo Leite diz que “embora não haja indício de conluio ou negociata sobre aquisição de ações da JBS por parte da BNDESPar, há situações suspeitas que precisam ser investigadas”. O juiz negou o pedido de prisão preventiva dos irmãos Joesley e Wesley Batista, mas mandou apreender os passaportes.

Agora, a operação vai investigar o motivo do suposto favorecimento à JBS. O juiz destacou que a empresa faz grandes aportes de recursos a partidos políticos, afirmando que a lógica dessas doações seria obter facilidades.

A atual presidente do BNDES, Maria Sílvia Bastos Marques, divulgou um vídeo. Disse que o banco está colaborando e que confia nos funcionários. “Nós, que respondemos pelo BNDES, e todos os empregados dessa instituição, são os principais interessados em que se apure quaisquer eventuais fatos que tenham ocorrido em relação às suas operações. Queria dizer também que nós cooperamos regularmente, cotidianamente, com todos as autoridades públicas, com os órgãos de controle, com o Ministério Público, com a Polícia Federal. Eu tenho confiança na probidade e na capacidade técnica dos nossos empregados”, disse.