Movimentos pró-impeachment voltam às ruas contra anistia ao caixa 2
Os principais movimentos organizadores das manifestações pró-impeachment de Dilma Rousseff prometem voltar às ruas no próximo domingo (4). A motivação para as manifestações foi a possibilidade - aventada na semana passada - da aprovação de anistia para o caixa 2 por parte do Congresso Nacional, com apoio do Planalto.
Para Carla Zambelli, do movimento NasRuas e coordenadora da Aliança Nacional, a chamada para novas manifestações mostra que a sociedade está atenta e que o novo governo tem muito a fazer. “Domingo vamos lutar contra a anistia ao caixa 2, apoiar as 10 medidas e o fim do foro privilegiado, por exemplo”, explica.
O desgaste de Michel Temer aumentou com denúncias do ex-ministro da Cultura Marcelo Calero, que levaram à queda de Geddel Vieira Lima da Secretaria de Governo. Principal articulador político do presidente, Geddel foi acusado de pressionar o colega para liberar a construção de uma obra em Salvador embargada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
No domingo à tarde os presidentes da República, do Senado Federal e da Câmara dos Deputados anunciaram que não haverá qualquer anistia ao caixa dois. De acordo com o presidente da Câmara Rodrigo Maia, caso seja apresentada alguma emenda ao projeto das Dez Medidas, a decisão será por votação nominal – e não por meio de encaminhamento de bancada, como foi feito durante a manobra de sexta-feira.
A decisão veio após nas redes sociais, sobretudo por conta da campanha #AnistiaaoCaixaDoisNão. A hashtag chegou a ocupar os trending toppics do Twitter mundial, sendo um dos assuntos mais comentados na internet em todo o mundo. Após a revolta das redes sociais, o número do whatsapp de Rodrigo Maia começou a circular pela internet, motivando uma enxurrada de mensagens contra o golpe.
O Movimento Brasil Livre (MBL) acredita que o anúncio de atos no dia 04 de dezembro e as incessantes ligações nos gabinetes fizeram com que o presidente adiasse a decisão na sexta (25). Na ocasião, Rodrigo Maia chegou a desafiar os jornalistas e críticos afirmando que “a Câmara tinha legitimidade para aprovar o texto que quisesse”.
Apesar da firmeza, Maia teve que recuar, junto o presidente do Senado Renan Calheiros. Durante o programa Roda Viva, exibido na segunda-feira passada, Onyx Lorenzoni havia denunciado que Calheiros operava nos bastidores contra as Dez Medidas. “Não fosse a mobilização dos movimentos democráticos, os golpistas Maia e Calheiros seriam vitoriosos contra o combate a corrupção”, defendeu a entidade.
De acordo com o jornal Estado de S. Paulo, o Vem Pra Rua lançou nas redes sociais a hashtag #vetatemer e se aproximou do PSOL, partido de esquerda que combateu o impeachment de Dilma. “Vamos apoiar fortemente ações como a do deputado Ivan Valente, do PSOL, que está pressionando para que a votação seja nominal. Estamos abertos para conversar com qualquer partido alinhado com a nossa causa. Por isso vamos parabenizá-lo”, disse Rogério Chequer, porta-voz do grupo.
Reduto de políticos tucanos e da antiga oposição, o Vem Pra Rua tem sido enfático. “Não vi o Temer se posicionar contra isso (anistia ao caixa 2). Gostaria de ouvir. Estamos de olho no Temer e no (deputado) André Moura (PSC-SE, líder do governo na Câmara). Estamos juntando evidências”, afirmou Chequer. Segundo o ativista, o presidente terá uma dura decisão nas mãos. “Temer vai ter que escolher se é a favor dos políticos corruptos ou está ao lado da sociedade”. Além do veto, porém, para não arcar com o ônus, o presidente precisará articular sua base para que a decisão não seja derrubada na Câmara posteriormente.
Autores do pedido de impeachment de Dilma, a advogada Janaina Paschoal e o jurista Miguel Reale engrossam a pressão sobre Temer. “Afirmo de maneira categórica que se esse projeto de anistia tiver andamento no Congresso e for sancionado pelo presidente, isso será uma situação inequívoca de quebra de decoro”, disse Janaina. Na semana passada, a advogada usou o Twitter para cobrar a demissão de Geddel.
Reale, por sua vez, avalia que ainda não há fato concreto para que se peça o impeachment de Temer, mas vê condescendência com a articulação pela anistia ao caixa 2. “Há um imenso desgaste. O problema não é só sancionar (a anistia ao caixa 2), mas dar sinal verde para as tratativas. As notícias indicam que ele não vetaria. Até agora, Temer não negou isso”, disse Reale.
Publicada em : 29/11/2016