Delatores explicam como obras superfaturadas financiaram corrupção

Nos depoimentos à justiça, os delatores da Odebrecht contaram como o grupo gastou bilhões de reais em pagamentos de caixa dois e propinas. E como obras superfaturadas financiaram a corrupção com o dinheiro dos impostos.

Como o gasto com os pagamentos ilícitos andava às alturas, chegou um momento em que o departamento de propina ficou com o caixa baixo. Marcelo Odebrecht, então presidente da empresa, reuniu seus executivos e deu ordem para resolver o problema. A saída foi superfaturar ainda mais as obras que a Odebrecht tinha com o governo.

O economista Gil Castello Branco, da Associação Contas Abertas, explica que quem banca o superfaturamento de obras públicas é o contribuinte.

“O dinheiro não saiu do banco da Odebrecht, não saiu da conta da empreiteira. Esse dinheiro saiu do nosso bolso. A empresa não pegou dinheiro dos seus recursos para distribuir essa propina. O que fez foi superfaturar obras públicas que são construídas com o nosso dinheiro. E com essa margem da gordura, distribuiu propinas”, diz.

O especialista lembra que a corrupção é uma coisa curiosa, pois a população, por vezes, não se dá conta que é um crime contra cada um de nós. “O cidadão comum acha que nada disso é com ele. Na verdade, apenas não se deu conta que nos roubaram 5,3 mil creches ou 5 mil UPAs, por exemplo”, explica.

Entenda:

Delator Henrique Valadares: Marcelo Odebrecht, nesse momento disse: ‘Olha, realmente esse é um problema crítico. Eu quero que vocês, cada um de vocês, pelo menos no mínimo para atender as suas próprias necessidades, gerem nos contratos da melhor forma possível, a mais segura, a mais discreta, a mais tudo. Esse caixa dois que todo mundo precisa ter’.

Uma obra superfaturada é quando se cobra por ela um valor acima da soma do custo mais o lucro da empresa. O delator Henrique Valadares, que foi vice-presidente da Odebrecht, citou como exemplo bem-sucedido de geração de dinheiro para o departamento de propinas o caso da hidrelétrica de Santo Antônio, construída em Rondônia.

O Rio Madeira precisava ser dragado para aumentar a profundidade do leito e facilitar o trabalho dos equipamentos. O mercado de dragas, segundo o delator, é dominado por belgas e holandeses.

Delator Henrique Valadares: Se você combinar com os holandeses que vai escavar areia e vai cobrar o preço mais alto, como se estivesse escavando uma argila extremamente dura, difícil de dragar, aquilo vai dar um aumento na medição e na fatura dele enorme. E você pode combinar com ele que vai lhe repassar essa diferença lá fora, em euros. Você paga em euros e ele devolve em euros. Então, é uma equação simples, não é complicada. Através da dragagem, ele resolveu o problema da geração do caixa dois.

O chefe desse setor, Hilberto Mascarenhas, disse que Marcelo Odebrecht estimulava o pagamento de propina com a prática de remunerar seus executivos com bônus proporcionais ao superfaturamento das obras. Quanto mais cara, maior era a possiblidade de geração de propina para engordar o caixa paralelo da construtora.

Hilberto Mascarenhas Silva: Você quer que o mundo se acabe e quer atingir aquela meta para você colocar no seu bolso seu milhão.

Perguntas: Os bônus?

Hilberto: Os bônus. Então, fazia qualquer coisa que tinha que fazer para poder atingir. Você pedir para um cara desse que queria aumentar o faturamento da obra dele, mas que o faturamento da obra dele para aumentar tinha que fazer um aditivo, e esse aditivo estava em cima da mesa de alguém que não estava aprovando, ele ia fazer miséria para aprovar esse aditivo, aumentar a obra.


Publicada em : 18/04/2017

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